Homenagem aos Pretos-Velhos
e Pretas-Velhas

Flores margaridas

Homenagem ao Pai Juvêncio do Congo
(Representando todos os pretos-velhos da Umbanda)

 

A ansiedade, a tensão, e por que não dizer, o desânimo, haviam tomado conta de todos aqueles seres. Dias terríveis tinham sido vividos. A notícia de que seriam vendidos e iriam para um novo continente os havia transtornado. Deixar suas mulheres, seus filhos ainda pequeninos, seu chão - aquela terra que seu suor havia molhado durante anos - era de aturdir! Melhor seria morrer!

Mas não havia solução e, com os olhos marejados e vermelhos de tantas lágrimas derramadas, caminharam como mortos-vivos para aquela galera que os levaria para o sofrimento. 

As chibatas cortavam o ar, atingindo-lhes a carne, provocando dores imensas naqueles corpos já alquebrados pelo grande sofrimento espiritual. AS nuvens negras, o vento soprando forte, os raios cruzando o céu: parecia que a própria natureza se rebelava contra aquela maldade!

O porão estava arrebatado de escravos acorrentados com sede e fome!

Ouviu-se então o barulho de uma âncora sendo recolhida: era o sinal de partida rumo ao desconhecido. A lembrança, a imagem dos pequeninos, tudo já era um passado distante; talvez nunca mais os vissem! 

 

Pouco tempo depois, as ondas fortes, o mar bravio demonstraram que o pequeno navio estava em alto-mar. Alguns dias eram passados quando a cólera começou a aparecer; o sofrimento aumentou e muitos não resistiram. Finalmente, sinais de terra apareceram e uma cidade surgiu: Bahia! Era o início da nova vida!

 

Os primeiros dias, tulmultuosos e sofridos iam sendo vencidos; somente a fé nos orixás e a força dos guias lhes davam ânimo.

Anos se passaram. O trabalho assíduo não lhes dava muito tempo para pensar. O corpo de cada um, antes forte e ágil, já mostrava sinais de fadiga. Os músculos já não possuíam a mesma elasticidade. O rosto estava sulcado de rugas. Os cabelos, antes negros, agora estavam embranquecidos, qual o prateado da espuma das ondas ao entardecer.

Como estariam os filhos, deixados ainda crianças? Teriam sobrevivido? E a companheira? Eram perguntas que os anos não apagaram nem responderam!

De repente, com a notícia que trazia o passado de volta: o seu senhor morrera e todos seriam vendidos novamente. Tudo iria recomeçar, mas agora trinta anos eram passados e seu corpo não aguentava mais esforços em demasia.

O novo senhor não tinha a compreensão daquele que fizera a passagem. Então, por não conseguir trabalhar de sol a sol, um dos escravos foi condenado a morrer de fome e sede amarrado num tronco: Pai Juvêncio, do Congo!

E a vós, Pai Juvêncio do Congo, que numa noite tranquila nos transmitistes esta narrativa, pedimos neste momento: dai-nos a vossa força, a vossa proteção, a vossa humildade, para que saibamos suportar as agruras desta passagem terrena e possamos perdoar aqueles que nos ofendam.

Saravá todos os pretos-velhos!

Saravá Pai Juvêncio do Congo!



-- Babalorixá Paulo Newton de Almeida --

Homenagem à Vovó Maria Conga
(Representando todas as pretas-velhas de umbanda)

 

Na singeleza de uma aldeia, numa pequena casa feita de argila e bambu, uma figura bondosa e amiga a todos encantava: passava o dia com seu rendado, bordando estrelas que o luar engalanava.

A todos atendia com carinho e sempre tinha uma palavra amiga, confortadora, para curar e aliviar os necessitados. Seus olhos brilhavam como duas joias preciosas, cheios de amor e bondade.

Nas noites tranquilas ouvia-se a sua voz, seu cântico, buscando na força da natureza, no tempo, a energia para poder transmitir paz àqueles que a procuravam necessitando de uma ajuda espiritual.

Com a arruda tu rezavas, com a tesoura tu cortavas: olho grande, mazelas, doenças. Enfim, restituías a saúde e a vida, assim como fizestes comigo, minha adorada Vovó Maria Conga, preta-velha querida, que andas pelos caminhos da vida.



-- Babalorixá Paulo Newton de Almeida --